Constituição de 1988 · Art. 68º

Leis Delegadas: O que o Presidente pode legislar? (Art. 68)

Publicado em 23/09/2026 · Equipe CF88

O Artigo 68 da Constituição Federal trata das leis delegadas, que são normas elaboradas pelo Presidente da República mediante autorização prévia do Congresso Nacional. Diferente das Medidas Provisórias, a lei delegada exige que o Executivo solicite uma 'delegação' ao Legislativo, que define os limites e o tema em uma resolução. Contudo, o artigo proíbe expressamente que temas sensíveis, como direitos fundamentais, nacionalidade e orçamentos, sejam objeto desse tipo de lei.

O processo legislativo brasileiro é desenhado para que a criação de leis seja, prioritariamente, uma função do Poder Legislativo. No entanto, o Artigo 68 da Constituição Federal de 1988 prevê uma exceção colaborativa: a lei delegada. Trata-se de um mecanismo onde o Congresso Nacional, sob condições específicas, transfere temporariamente a competência de legislar sobre determinado assunto ao Presidente da República. Embora tenha caído em relativo desuso devido à agilidade das Medidas Provisórias, a lei delegada permanece como um instrumento vital para o equilíbrio e a eficiência da administração pública.

Como funciona a criação de uma Lei Delegada?

Diferente de um projeto de lei comum, que nasce no Legislativo ou é enviado pelo Executivo para votação, a lei delegada inverte a lógica inicial. O processo segue três etapas fundamentais descritas no texto constitucional:

  1. A Solicitação: O Presidente da República deve tomar a iniciativa e pedir formalmente ao Congresso Nacional a autorização (delegação) para legislar sobre um tema específico.
  2. A Resolução: Se o Congresso aceitar o pedido, ele publicará uma Resolução. Este documento é o “mapa” da delegação: ele deve especificar exatamente o que o Presidente pode escrever, quais são os limites técnicos e o prazo para que a lei seja editada.
  3. A Elaboração: Com a autorização em mãos, o Presidente redige e publica a lei. Conforme o parágrafo 3º do Artigo 68, se a resolução exigir que o Congresso revise o texto final, os parlamentares farão uma votação única, sendo proibido apresentar qualquer emenda (alteração) ao texto produzido pelo Presidente.

O que o Presidente NUNCA pode legislar via delegação?

A Constituição é rigorosa ao proteger certas matérias do arbítrio do Executivo. O parágrafo 1º do Artigo 68 lista os temas que são indelegáveis. O Presidente não pode criar leis delegadas sobre:

  • Atos de competência exclusiva do Congresso: Como ratificar tratados internacionais ou sustar atos do Executivo.
  • Atos privativos da Câmara ou do Senado: Como a organização de seus próprios serviços internos.
  • Matéria de Lei Complementar: Temas que a própria Constituição exige que sejam tratados por quórum qualificado (maioria absoluta) não podem ser delegados.
  • Direitos Fundamentais e Políticos: Legislação sobre nacionalidade, cidadania, direitos individuais e eleitorais são proibidas.
  • Organização do Judiciário e MP: A carreira e as garantias de juízes e promotores são protegidas contra interferência direta do Executivo via delegação.
  • Orçamento: Planos plurianuais, diretrizes orçamentárias e orçamentos anuais não podem ser objeto de lei delegada.

Qual a diferença prática entre Lei Delegada e Medida Provisória?

Esta é uma dúvida comum para estudantes e concurseiros. A principal diferença reside no momento da autorização e na natureza da urgência:

CaracterísticaMedida Provisória (Art. 62)Lei Delegada (Art. 68)
AutorizaçãoPosterior (o Presidente edita e o Congresso avalia depois)Prévia (o Congresso autoriza antes do Presidente editar)
InstrumentoAto unilateral do Presidente com força de leiResolução do Congresso + Ato do Presidente
RequisitosRelevância e UrgênciaSolicitação e Autorização específica
Prazos60 dias (prorrogáveis por mais 60)Definido na Resolução de delegação

Jurisprudência: O que diz o STF sobre o Artigo 68?

O Supremo Tribunal Federal (STF) possui decisões consolidadas que reforçam os limites do Artigo 68. Um dos marcos é a ADI 241/DF, onde o tribunal reafirmou que qualquer tentativa de legislar sobre matérias reservadas à Lei Complementar através de lei delegada é inconstitucional. O STF entende que o silêncio da Constituição sobre certas permissões deve ser interpretado de forma restritiva para evitar o esvaziamento das funções do Poder Legislativo.

Outro ponto importante na jurisprudência é o controle previsto no Artigo 49, inciso V da CF88. Se o Presidente, ao editar a lei delegada, ultrapassar os limites fixados na Resolução do Congresso, o Legislativo tem o poder de “sustar” (suspender) os efeitos daquela lei por meio de um Decreto Legislativo, protegendo assim a sua competência original.

Exemplos práticos do cotidiano e Emendas

Na história recente do Brasil, as leis delegadas tornaram-se raras. Um exemplo histórico foi a Lei Delegada nº 13 de 1992, que tratou da reestruturação de gratificações de servidores públicos. Hoje, governos preferem usar Medidas Provisórias por não precisarem esperar a aprovação de uma resolução autorizativa.

Quanto a alterações no texto, o Artigo 68 mantém sua redação original de 1988. Ao contrário do Artigo 62 (que foi profundamente alterado pela Emenda Constitucional nº 32/2001), o regramento das leis delegadas permanece intacto desde a promulgação da Carta Magna.

Nota: Este conteúdo possui caráter educativo e informativo, não substituindo o aconselhamento jurídico profissional ou a consulta direta ao texto da Constituição Federal no site do Planalto.

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Perguntas frequentes

O Congresso pode alterar o texto da lei delegada feita pelo Presidente?

Não diretamente. De acordo com o § 3º do Artigo 68, se a resolução de delegação prever a apreciação do projeto pelo Congresso, os parlamentares devem realizar uma votação única para aprovar ou rejeitar o texto integralmente, sendo vedada qualquer apresentação de emendas.

Por que as leis delegadas são pouco utilizadas hoje em dia?

O uso caiu drasticamente após a Constituição de 1988 ter facilitado o uso das Medidas Provisórias (Art. 62). Como as MPs permitem que o Presidente legisle imediatamente em casos de urgência sem pedir autorização prévia, elas se tornaram o instrumento preferido do Executivo em detrimento da lei delegada.

Fontes e referências

  1. Constituição Federal de 1988 - Planalto

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