Constituição de 1988 · Art. 98º

Juizados e Defensoria: Como o Artigo 98 facilita o acesso à Justiça?

Publicado em 26/10/2026 · Equipe CF88

O Artigo 98 da Constituição Federal de 1988 estabelece a criação dos Juizados Especiais (Cíveis e Criminais) para resolver causas rápidas e menos complexas, priorizando a conciliação. Além disso, institui a Justiça de Paz para casamentos e mediações, e garante autonomia administrativa e financeira às Defensorias Públicas Estaduais, assegurando assistência jurídica gratuita e eficiente para quem não pode pagar por um advogado.

O Artigo 98 da Constituição Federal de 1988 é um dos pilares da democratização do Judiciário brasileiro. Em vez de processos que levam décadas, este dispositivo prevê mecanismos para que conflitos cotidianos sejam resolvidos com agilidade, oralidade e o mínimo de burocracia, além de fortalecer as instituições que protegem os mais vulneráveis. Trata-se de uma norma que busca retirar o Direito das prateleiras empoeiradas dos tribunais e trazê-lo para a realidade prática do cidadão.

O que são os Juizados Especiais e por que eles existem?

O inciso I do Artigo 98 determina que a União (no Distrito Federal e territórios) e os Estados devem criar Juizados Especiais. Eles são divididos em Cíveis e Criminais e possuem características muito específicas que os diferenciam da justiça comum:

  • Causas Cíveis de Menor Complexidade: São aquelas que envolvem valores baixos (geralmente até 40 salários mínimos) ou questões simples que não exigem perícias complexas.
  • Infrações Penais de Menor Potencial Ofensivo: Crimes cuja pena máxima não ultrapasse dois anos, como ameaças, calúnias ou lesões corporais leves.
  • Ritos Simplificados: O processo é regido pela oralidade, simplicidade, informalidade, economia processual e celeridade.
  • Foco na Conciliação: O objetivo principal não é punir ou condenar imediatamente, mas sim promover um acordo entre as partes (transação ou conciliação).

A regulamentação desses juizados veio com a Lei nº 9.099/1995, que permitiu, por exemplo, que o cidadão entre com uma ação sem advogado em causas de até 20 salários mínimos.

Qual é a função da Justiça de Paz?

O inciso II trata de uma figura muito conhecida, mas cujas atribuições constitucionais são frequentemente ignoradas: a Justiça de Paz. Segundo a CF88, ela deve ser remunerada e composta por cidadãos eleitos pelo voto direto para mandatos de quatro anos.

As principais funções da Justiça de Paz incluem:

  1. Celebrar casamentos: É o juiz de paz quem preside a cerimônia civil.
  2. Verificar processos de habilitação: Conferir se os noivos estão aptos a casar perante a lei.
  3. Atribuições conciliatórias: Atuar como mediador em conflitos comunitários antes que eles se tornem processos judiciais.

Embora a Constituição preveja a eleição para juiz de paz, na prática, muitos estados ainda utilizam sistemas de nomeação ou concursos, aguardando regulamentações locais completas para implementar o modelo eletivo.

A autonomia da Defensoria Pública (Parágrafo 2º)

Uma das mudanças mais significativas no Artigo 98 ocorreu com a inclusão do § 2º. Ele estabelece que as Defensorias Públicas Estaduais possuem autonomia administrativa e financeira. Isso significa que a Defensoria tem o poder de elaborar sua própria proposta de orçamento, dentro dos limites da Lei de Diretrizes Orçamentárias.

Essa autonomia é fundamental para que a instituição não fique refém de decisões políticas do Governador do Estado. Se a Defensoria precisa de mais defensores para atender uma região carente, ela tem independência para gerir seus recursos e priorizar o atendimento jurídico gratuito ao cidadão hipossuficiente (quem não tem recursos financeiros).

Exemplos práticos do Artigo 98 no cotidiano

Para entender como esse artigo afeta sua vida, considere as seguintes situações:

  • Problemas com operadoras de telefonia: Se você teve uma cobrança indevida de R$ 500,00, você pode ir ao Juizado Especial Cível (antigo Pequenas Causas) e resolver o problema rapidamente, muitas vezes sem precisar de advogado.
  • Conflito de vizinhança: Uma briga por causa de barulho ou árvore no muro pode ser resolvida em uma audiência de conciliação no Juizado, evitando que o caso se arraste por anos na justiça comum.
  • Casamento Civil: Quando você agenda seu casamento no cartório, a presença do Juiz de Paz ali garantida é fruto direto do inciso II deste artigo.
  • Assistência da Defensoria: Se uma pessoa é processada e não tem dinheiro para pagar um defensor particular, a estrutura garantida pela autonomia financeira do Art. 98 assegura que um Defensor Público faça a sua defesa com qualidade.

Jurisprudência e Emendas Constitucionais

O Artigo 98 foi profundamente moldado pela Emenda Constitucional nº 45/2004 (a Reforma do Judiciário), que introduziu a autonomia da Defensoria Pública e a destinação de custas judiciais para a modernização do próprio Judiciário (§ 1º).

No campo da jurisprudência, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem decisões históricas sobre a autonomia da Defensoria. Na ADI 5296, o STF reafirmou que o Poder Executivo não pode reduzir unilateralmente o orçamento da Defensoria Pública se este estiver dentro dos limites legais, protegendo a independência da instituição. Além disso, o STF já decidiu no RE 602072 (Tema 368) que a transação penal (acordo para não iniciar processo criminal em troca de penas alternativas) é um direito subjetivo do réu, desde que preenchidos os requisitos da lei dos Juizados Especiais.

Atenção: Este conteúdo tem caráter meramente educativo e informativo, não constituindo aconselhamento jurídico. Para casos específicos, consulte sempre um advogado ou a Defensoria Pública.

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Perguntas frequentes

Preciso de advogado para entrar no Juizado Especial?

Depende do valor da causa. Em processos de até 20 salários mínimos no Juizado Especial Cível, o cidadão pode atuar sem advogado. Para causas entre 20 e 40 salários mínimos, ou em casos de recurso, a presença de um advogado ou defensor público é obrigatória conforme a Lei 9.099/95.

O que acontece se não houver acordo no Juizado Especial?

Caso a conciliação ou a transação não sejam possíveis, o processo segue para a fase de instrução e julgamento. O juiz ouvirá testemunhas, analisará provas e proferirá uma sentença. No Juizado Criminal, se o réu não aceitar o acordo, o Ministério Público pode oferecer a denúncia formal.

O Juiz de Paz é um juiz de carreira?

Não necessariamente. O Artigo 98 define que a Justiça de Paz é composta por cidadãos eleitos, e não necessariamente por magistrados de carreira que passaram em concurso para juiz togado. Sua função é limitada a casamentos e conciliações comunitárias, sem poder para julgar crimes graves ou grandes disputas cíveis.

Fontes e referências

  1. Constituição Federal de 1988 - Artigo 98
  2. Lei nº 9.099/1995 (Juizados Especiais)
  3. STF - ADI 5296 (Autonomia da Defensoria)

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